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05/03/2016
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Caro recrutador, a minha foto não me representa



Um texto de 3 de novembro de 2013.

Nos últimos dias, tentava me recolocar no mercado de trabalho. Sou estudante de Comunicação Social com ênfase em Rádio e TV e, já não bastasse a burocracia e os jogos de interesse que delimitam os meios, tenho que aguentar o fato de que alguns recrutadores não são profissionais de Recursos Humanos, mas membros do corpo diretivo, que, muitas vezes, adotam práticas próprias de seleção. Uns não selecionam mulheres, outros não contratam pessoas mal afeiçoadas e por aí vai. Se eu fosse mulher, os pré-requisitos seriam ainda mais absurdos.

Em uma das tentativas de conseguir emprego, recebi uma resposta que me deixou deveras puto. A minha carta de apresentação não pareceu convincente para o destinatário, que desdenhou do trecho em que eu dizia precisar "apenas de uma chance para colocar em prática a dedicação que tenho dado aos meus estudos". Ele questionou minha seriedade porque em minha foto de perfil, apareço com um boné vermelho de lado.

Se ele me dissesse que a foto poderia comprometer a minha reputação, eu entenderia e até agradeceria pelo conselho, mas ele quis me desqualificar, usando o diminutivo e, ao que me parece, um pouco de ironia no fim da mensagem, como reproduzo abaixo.

Boa iniciativa para alguém que usa um bonézinho de lado.

Petulante que nunca deixei de ser, resolvi dar as caras, como nenhuma foto poderia fazer por mim, e enviei a réplica a seguir.

P,
 
Sou uma das pessoas mais sérias que você jamais conhecerá. Se acha que estou blefando, ligue para as empresas onde trabalhei e peça as minhas referências. Faça questão de falar com meus ex-superiores.

Agradeço o comentário, mas dispenso a análise do currículo. Não gostaria de ser julgado antes mesmo de um contato pessoal, como aconteceu.

Fico imaginando como Chico Science seria julgado por você. O cara se enrolava em trapos remendados. Imagine só Einstein, com aquela língua de fora. Descolado ou deslocado? Ambos? E se eu usasse uma foto de criança em meu perfil? A foto diria que sou infantil? Se usasse a foto de um famoso, seria um tiete ou um portador de transtorno dissociativo de identidade?

O mais engraçado é isto vir de alguém que usa o avatar de um espermatozoide e uma capa com o detalhe de uma tatuagem de uma caveira com asas e cabelo. Como eu deveria te julgar? Um precoce? Um rebelde? Acho que eu não deveria te julgar.

No meio audiovisual, existem as figuras mais emblemáticas possíveis. É até estranho que alguém do meio, um profissional que trabalha com o lúdico, faça um comentário assim. Como alguém consegue criar com um pensamento reducionista desses? Deixe as condicionais para os profissionais de Exatas, você é ou deveria ser um artista.

Há várias pessoas de "bonézinhos de lado" por aí, mas poucas serão capazes de vestir a camisa de uma empresa, como eu, porque ser sério não é ser sisudo, mas comprometido. Se você tivesse algum compromisso com a seriedade, teria analisado meu currículo antes de qualquer coisa.

Levei menos de um segundo para tirar aquela foto, alguns dias elaborando um resumo da minha vida, outras horas para selecionar os destinatários e anos dedicando meus esforços nas carreiras acadêmica e profissional, para você me julgar por um quadrado de pixels, resumindo-me em uma linha? Acho que não, mas dispenso seus esforços futuros em me compreender. Eu me demito, antes mesmo de ser admitido.

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Hoje, não uso mais a foto com o "bonézinho de lado". Não é medo de não preencher o requisito do avaliador, mas uma questão de identidade visual. Naquela foto, eu usava um conjunto da Adidas, marca que passei a boicotar por acreditar num envolvimento da empresa com trabalho escravo.

Gostava daquele conjunto porque foi o último presente que recebi do meu pai, falecido em 2008. O boné era o elemento menos significativo, uma peça da marca Blunt. Eu mesmo comprei e deixei de usar, depois que descobri que blunt significava baseado.

Então, eu uni todas aquelas cores vermelhas das roupas e registrei o momento num ângulo que fazia ou pretendia fazer referência ao enquadramento usado nos clipes do Beastie Boys, sobretudo naqueles filmados com grande angular.

As fotos eram representações fiéis do meu físico [o que é uma infelicidade tremenda] e nada mais. Uma foto pode conter mais significados do que transmitir. E se ela não transmitir o que sou, compareço pessoalmente ou virtualmente. Seriedade garantida ou seu e-mail de volta.
 
A empresa do recrutador fechou um ano depois.
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