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09/02/2016
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Mídias sociais: do narcisismo à inteligência coletiva


Quando comecei a navegar por mídias sociais, nos idos de 2005, elas se resumiam em chats, comunicadores instantâneos e os novatos "sites de relacionamento". Este, basicamente, era o universo das redes sociais no Brasil, com canais praticamente exclusivos para a interação.

Originalmente, nenhuma das mídias tinha apelo imagético. Havia apenas opções de upload restritas às conversas. O embed de objetos em scraps ainda não existia e as imagens de perfil se limitavam aos avatares. As precárias conexões de internet também não possibilitavam muita usabilidade.

Com o avanço dos pacotes de banda larga, o Orkut e o Facebook ganharam ou realçaram um atrativo: a criação de álbuns. Até então, as relações eram bilaterais e até plurais: conversas privadas, bate-papos, testemunhais e participações em fóruns. Entretanto, a chegada dos álbuns insuflou uma característica própria, mas não exclusiva, das redes egocentradas: o narcisismo.
 
Se antes o grande chamariz era o intercâmbio cultural e de conhecimento, presente nos laços criados entre pontos geograficamente distantes, e no ambiente colaborativo proporcionado em tópicos de discussão, agora, o que vigora é o capital social. E qualquer estímulo vale para inflar o ego.
 
Como lembra a jornalista Susan Liesenberg, em colaboração para o e-book 'Para Entender as Mídias Sociais', "comentários, cliques,  followers, 'amigos', 'fãs', 'retweets' e repercussões fermentam o desejo de ver e de ser visto", e cada átimo parece suplicar uma prova de vida do usuário.

Paradoxalmente, hoje, os usuários estabelecem mais laços do que antigamente - talvez na ânsia de construir um networking ou com a finalidade de parecer sociável e popular. No entanto, muitas vezes, a relação entre os interagentes não passa da inclusão de círculos sociais. Quando vai além, fica na mais superficial demonstração de envolvimento, no qual se troca elogios e falsas demonstrações de afeto, às vezes, automatizados por botões.
 
Os usuários vivem como se tivessem uma caravana disposta a tietá-­los, mal sabem que estão rodeados de laços fracos. Não é difícil conhecer pessoas que nunca conversaram com boa parte dos amigos conectados, por exemplo. Na verdade, seus círculos sociais reais são os mesmos adquiridos offline, criados a laços fortes.

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É claro que nem tudo é crítico como descrevo. As redes ainda são ricas fontes de conhecimento e entretenimento. Acontece que as pessoas criam projeções do que elas deveriam ou queriam ser e/ou parecer e alimentam essas imagens com os recursos oferecidos pela rede. O pior é que, aqueles que mal extrapolam o próprio ego em suas postagens acabam se tornando produtores de conteúdos... de si.
 
A superficialidade das relações não para por aí. Mesmo quando falamos de mobilização social, é possível identificar atores superficiais promovidos pelas redes. Desde junho de 2013, quando ruas foram tomadas no país com reivindicações das mais diversas pautas, eventos são criados no Facebook para convidar potenciais manifestantes. É exorbitante a diferença entre as pessoas que confirmam participação daquelas que, de fato, comparecem ao ato. Esse é só um dos exemplos de como as pessoas fingem ser agentes engajados, como leitores, amantes das artes ou ativistas. Há diversos outros.

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Na contramão dos narcisistas, pessoas aproveitam a gratuidade das ferramentas para promover ações de mobilização. E não falo de partidos, partidaristas ou quaisquer outros praticantes de proselitismo político e afins - que infestam as redes. Lembro-­me, na verdade, de ideias simples, capazes de retomar a livre troca de informações das antigas comunidades do Orkut.
 
Um grande exemplo de plataforma colaborativa é o site Lixo Político, que recebe via Instagram, Twitter e Facebook denúncias de irregularidades cometidas por candidatos na disposição de banners e cavaletes de propaganda política durante as eleições gerais.
 
Através das redes, os organizadores do site fazem a curadoria dos conteúdos enviados, atestando a veracidade das fotos e relacionando as imagens aos respectivos candidatos, partidos, cargos disputados, estados e cidades. Essa iniciativa transforma os atores envolvidos em fiscais das leis eleitorais e evidencia que aqueles que dizem representar a sociedade nas mais variadas esferas não são capazes de respeitar o trânsito de pedestres ou leis municipais.
 
Infelizmente, o engajamento dos usuários do Lixo Político é sazonal. Não poderia ser diferente, pois as eleições ocorrem em quadriênios. Mas há maneiras menos restritas de se praticar a cidadania. Outra atitude cidadã é exemplificada e estimulada pela página Amor no Cabide, que promove a doação de roupas para pessoas em situação de rua.
 
Outras organizações divulgam campanhas de arrecadação de agasalhos em épocas de friagem, mas todas elas se tornam agentes intermediários entre o doador e o beneficiado. A fanpage incentiva uma maneira alternativa para a doação de roupas de frio, em que o doador pendura as peças em cabides e as disponibiliza em espaços públicos.
 
Tudo começou na cidade natal das idealizadoras da página, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e acabou gerando células em outros municípios brasileiros. Essa iniciativa é tão louvável quanto o trabalho do grupo Anjos da Noite, pois atende parcela significativa da população em situação de rua, aquela que não pernoita em centros de acolhida e, muitas vezes, não possui roupas suficientes para trocas.  
 
Não é preciso transformar sua conta num espaço humanista para incentivar a inteligência coletiva. Basta utilizar seus conhecimentos para fomentar discussões e promover ideias, e não opinar sobre tudo como se fosse um polímata, tentando arrancar suspiros da torcida. Uma amostra disso é a página Afinal, quem é o autor?, que surgiu no Orkut e migrou para o Facebook, reunindo amantes da literatura dispostos a revisar as autorias de frases e obras espalhadas pela rede.
 
Fica a dica.
 
Imagem: Joan Cornellà (topo)
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