;
25/02/2016
Publicidade

A máfia dos sebos na minha cidade


Um belo dia, resolvi mudar comprar o box completo da série Friends. Mas não podia ignorar o fato de que já havia comprado a primeira temporada avulsa. Decidi então, trocar a mercadoria em algum sebo do centro da cidade.

Sebo, você deve saber, é o recanto dos saudosistas ávidos por conhecimento ou entretenimento. Livros amarelados pelo mofo tempo; relíquias que, a princípio, não eram consumíveis. Mas onde moro é mais do que isto - aqui, o sebo é onde o sabor do saber se torna salgado.

Na verdade, o preço nem é tão inviável, mas sim, o custo benefício. Você paga por livros rabiscados, com mais de duas orelhas, se é que me entende. Ainda assim, às vezes, é o nosso último refúgio. Mas esqueçamos da fantasia que nos desperta um sebo e lembremos de que é apenas mais um comércio disposto a usurpar o seu senso de pechincha.

Estava crente de que traria para casa, no mínimo, dois livros em troca da primeira temporada da sitcom. Pensava assim, pois levava em consideração que sebos aceitam trocas, como ocorre quando não temos dinheiro. Mas foi outro tipo de biscate que encontrei ~apagar~.

Dos dois sebos que adentrei, obtive a mesma resposta: "podemos pagar dolze reais por isto". Isto... Sim, meus caros, dolze reais pela primeira temporada novinha de uma das melhores séries já vistas. Uma vendedora tentou ser carinhosa: "a gente pode conseguir até quinze reais". Às vezes, acho que minha aparência de bicho-grilo atrapalha em qualquer tipo de negociação. Devem pensar que levanto dinheiro pra encher o meu cachimbo.

Um deles tentou argumentar: "é que dvd não sai muito". Tive que concordar, pois se você amontoa os encartes em um caixote de mamão papaia, num rodízio frenético entre títulos como Jacó Dois Dois, Star Trek Nemesis e Inspetor Bugiganga - fica difícil sair mesmo.

Falando sério, acho que os sebos têm uma espécie de código, uma cartilha com uma resposta para cada pergunta. O preço era o mesmo, os motivos eram os mesmos. "Nós compramos pela metade e vendemos pelo dobro", dizia a loira quase pegando ar, e completava: "temos que pagar aluguel, funcionários. Lutamos contra a pirataria, a internet..." Veja bem, ela combate o crime fora do expediente, achei melhor nem pechinchar.

Acontece que a primeira temporada de Friends tem quatro dvds, o que daria o justo preço de dolze reais se o produto fosse pirata. Mas pense comigo, a série passou mutilada no SBT e, portanto, só foi dublada em duas temporadas. Logo, não é tipo de série na qual os camelôs costumam investir.

Na internet, os preços variam de 35 a 65 reais, o que justifica o preço de 25 reais alçado pelos donos dos sebos. E se quiser baixar, irá levar um dia ao menos em virtude de nossa pseudo-banda larga.

Nos dois últimos casos, eu entendo o risco dos donos dos sebos. Entendo também o espírito "vamos faturar" dos comerciantes; sei que o cliente tem razão e o comércio tem dinheiro. O que não compreendo é por que eles anunciam a troca se ela não existe.

A troca em sebos é um processo de venda velado. São duas etapas: você vende pra o sebo, que vende pra você. Quando eles dizem que aceitam trocar, na verdade, estão dizendo que aceitam trocar por uma mercadoria cujo preço seja o mesmo estipulado para aquilo que você trouxe. É o mesmo que você vender seu livro e comprar outro com o dinheiro arrecadado.

Se não me engano, uma obra deve ter 56 páginas para ser considerada um livro. Pensando nisto, vi que na área destinada a Comunicação Social não havia nenhum livro pela quantia de dolze reais. Em quase nenhuma prateleira havia, pois os livros são vendidos por 15 ou mais reais, nunca por dolze.

Agora, pense comigo. Se o mafioso dono do sebo trocasse um de seus títulos repetidos de até 25 reais pelo meu box, ele se livraria de algo que duas pessoas rejeitaram e levaria uma nova obra, que lhe renderia, posteriormente, um lucro de, no mínimo, 100%.

No final das contas, eu dei a primeira temporada para um amigo. Mas sempre que eu me encontrar neste impasse, doarei a mercadoria para as Casas André Luiz - é isto ou "ganhar" dolze reais. Nem titubeio, véi. Cada trabalho tem seu preço.
 
Imagem: Robson Leal (topo)

Esse texto foi publicado pela primeira vez em 1° de outubro de 2012. Dias atrás, voltei a vender minhas quinquilharias, mais em brechós do que em sebos, e descobri um dono de sebo interessante, que não faz trocas, mas também não finge que aceita. Continuo doando muita coisa. Só não consigo lembrar de que tipo de texto acadêmico eu tirei a informação de que um livro deve ter, pelo menos, 56 páginas. Também esqueci de citar que alguns sebos ousam te pagar com vales, que só podem ser aceitos na própria loja.
© Copyright 2015 Blog do Tejota Tema: Themexpose